• Cida Chagas

Eu ado, o que foi 20/20 para mim?




Brasília, 21 de dezembrode 2020. Oi, colega A gente deixou de ter aulas em março.Caramba, nunca pensei que a genteiria ficar tantotempo assim confinado em casa. Só na tela. Eu não fiquei o tempo todona tela. No começo eu fiquei ali, meio sem saber o que fazer, falaram que iriam ser só duas semanas. Depois mais duas semanas, depois um mês. Agora, mais de um ano. A gente deixou pra e começamos a falar com o pessoal da escola, com os professores. Sorte minha. O meu colegado futebol, Roni,estuda em escola pública. Demorou mais ainda pra voltar. Sei lá! Eu tava indo bem vendoas minhas séries, lendo os meus mangas, outras histórias em quadrinhos e assistindo os meus animes no tablete. Eu li livros, mas não tanto quanto a minha mãe insistia. Eu acho que eu li um livropor que eu queria e um porque a escola pediu. O resto foi tela[1]. Ainda bem que a minha mãe e o meu pai sempre estiveram aqui comigo. Me trataram bem e ao meu irmão[2].


Para mim esse vírus veio pra tirara nossa liberdade por que eu sinto falta de jogar bola com os meus amigos. Também na escola, era legal o intervalo, a gente se reunia no pátiopro futebol. Com o víruseu nem pude ir no parque aqui perto de casa. O Coronavírus se espalhou de repente parece que alguém abriua Caixa de Pandora, pior, parecia o Tanos, as pessoas eram eliminadas aleatoriamente[3]. O aniversário do meu irmãofoi punk. O cara tinha eu, minha mãe e o meu pai.Ficou emburrado e não quis comer o bolo. Ele queria chamar os colegas da escola e da rua. Não deu. O meu pai prometeu no próximo ano. Sei não, hein? Os meus avós deram os parabéns pelo Zoom. Eu estava passando pela sala quando me viram e quiseram falar comigo. Faz tempo que a gente não se também. Nem no Natal do ano passadoa gente se viu. Foi quando? Eu acho que foi em julho de...2018 que a gente se viu... não... 2019.Nossa que tempo louco, se 2020 não fosse 20, 20 eu também me perderia. Eu pouco posso fazer. Eu tenho que lavar as mãos o tempo todo, fico trancado no meu quarto, saio para comer e olhar a televisão na sala, mas prefiro o meu celular. No começo meu pai chamava a gente pra jogar xadrez e outros jogos lá de tabuleiro, depois, acabou não chamando mais. Eu fiquei na minha.


Tinha dia que eu nem via o meu pai. Ele ficava enfurnado no quarto trabalhando, teletrabalhando, ele dizia. Ficou como eu nas aulas. Teleaula. A minha mãe parecia uma maluca, tinha o teletrabalho, a roupa e a cozinha.Ela não se arrumava mais, como ela costumava a fazer quando ia trabalhar.[4] Às vezespassava o dia de pijama e eu seguia a onda. Eu e o meu irmão ajudávamos na faxinada casa duas vezesna semana. Eu não gostava, mas tinha que fazer senão o vaso ficava sujo. Que nojo! Férias? Que férias? A gente tinha combinado de passar as férias na casa de meus avós por parte de mãe. Eles têm uma casa com um quintal enorme, parece um sítio. Minha mãe diz que é um sítio,mas meu avô diz que não.Ele cria galinha, tem manga, goiaba, tem gato e cachorro. Mas,não é sítio. É só um quintal grande. Nada disso rolou. Ficamos em casa pra proteger meus avós. Nada foi como nos anos anteriores[5].


Nessa quarentena descobri o Discover. Conversei bastante com os meus colegas de escola enquanto jogava online com eles. Achei que era coisa pra bebês, mas, vi que funciona pro meu grupo. Sai do WhatsApp. Sai, não. Deixei pra lá. Tinha gente que ficavalá no kkkk e ofendendo os outros, quase chegou em mim, mas pulei forado grupo. Achei melhor o Discover. Manquei quando falei pra um avatar de garota que eu tinha 18 anos, ela nunca mais falou comigo. Tem gente ali que eu não sei quem é? Nunca vi. O pessoal não coloca a cara, não tem telefone, avatar. Cada um mais maluco que o outro.O Tik Tok bombou! Segui gente que eu nem imaginava que existia. Quase eu fiz um vídeo pra postar sobre as aulas na tela, mas fui impedido pelo meu pai. Se fossea minha mãe eu me jogava nessa nova carreira de Tik Tok, mas meu pai venceu[6].

O meu perfil no Instagram quase não tem post, mas o número de seguidores aumentou nessa Quarentena. Maluco, nem precisei fazer nada pra isso acontecer. Não tô nem pra isso. Prefiroa galera da minha escola.É muito chato ficar online, não pra jogar bola. AmongUs? Brinquei no começo, depois desisti. Mudei o meu avatar no Discover pelo Among Us. Meu irmãozinho fez até um desenho bem maneiro sobre o Among Us. Uma vez eu fui o intruso. Daí esse intruso se tornou o meu avatar[7].


Falando em carreira, eu queria era ser jogador de game, melhor ainda, ser assistidor de anime. Vi um cara que ganhava 40 mil dólares por ano pra assistir anime. Esse emprego eu queria. O tanto de anime que eu assisti este ano. Acho que eu ganharia o dobro. Cara, tem uma coisa que aconteceu muito legal. O dia que a Internet deu pau em casa. Nem o celular funcionava. Nada. Você não imagina o que foi aquele dia. Durou o dia todo. E foi justamente naqueles dias em que o meu pai já não chamava ninguém mais para jogar xadrez. pensaram no técnicoda Internet. O cara parecia Deus. Ele iria resolver todos os nossos problemas. Mas, não foi assim, quando deu 2 horas da tarde, nada foi resolvido, ninguém tinha almoçado, nenhuma tela,aí sim que minha mãe e o meupai resolveram fazer outra coisa do que esperar a Internet voltar. Ela voltou no dia seguinte às 05 horas da manhã.

E a tarefa da escola? Como a professora podia passar tarefa nessa pandemia? Nem tinha mais aquela ideiade fazer tarefa antes do game.Eu estava o tempo todo na tela. A tela tinha se tornado o meu parquede diversões[8].


2020 está terminando. Não queria ter 2021 com o Corona. Falam sobre a vacina, no começo, as pessoas queriam a vacina, agora que ela está aí, não querem tomar a vacina. Sei lá. Eu vou tomar. Quero jogar bola logo com o pessoal.


Olha só, além da Covid a gente ainda teve o Black Lives Matter, aqui no Brasil, discutimos e protestamos bastante. Eu participei da hashtag Vidas Negras Importam[9].

E você, como foi 20,20 aí no seu país?


Caio


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Caio tem 15anos. Sua escola pediu para escrever uma carta a um/uma colega adolescente de um país de língua portuguesa. Caio deveria falar sobre2020.


Todos os personagens são fictícios e para a produção destacarta foram utilizados artigos científicos e de jornais. As referências estão listadas abaixo:


[1]https://www.researchgate.net/publication/342543593_O_olhar_das_criancasadolescentes_sobre_a_pandemia_ Covid-19_e_a_psicologia/link/5efa99a545851550507e006e/download

[2] https://www.bbc.com/future/article/20200603-how-covid-19-is-changing-the-worlds-children

[3] http://www.ovlej.fr/wp-content/uploads/2020-05-18-Resultats-Enqu%C3%AAte-vacances-2020-Ovlej.pdf

https://www.researchgate.net/publication/342543593_O_olhar_das_criancasadolescentes_sobre_a_pandemia_Co vid-19_e_a_psicologia/link/5efa99a545851550507e006e/download;

https://www.researchgate.net/publication/342543593_O_olhar_das_criancasadolescentes_sobre_a_pandemia_Co vid-19_e_a_psicologia/link/5efa99a545851550507e006e/download

[4] http://mulheresnapandemia.sof.org.br/

[5] http://www.ovlej.fr/wp-content/uploads/2020-05-18-Resultats-Enqu%C3%AAte-vacances-2020-Ovlej.pdf

[6] https://www.adolescenciaesaude.com/detalhe_artigo.asp?id=841

[7] https://www.washingtonpost.com/lifestyle/2020/11/03/how-pandemic-is-affecting-fatherhood-online-adolescence- 2020/

[8] https://www.washingtonpost.com/lifestyle/2020/11/03/how-pandemic-is-affecting-fatherhood-online-adolescence- 2020/

[9] https://www.cidachagas.com/guia-para-m%C3%A3es-e-pais-contra-o-raci


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Eu Ado - Carta 2020
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